A Existência da Felicidade - Capítulo 03

 

Sentei-me em minha cadeira e falei calmamente com ela.

- Se você quiser pode ir para casa, vá há um médico.

- Não quero Felipe, estou melhor aqui, acredite.

Olhei-a nos olhos e vi o tamanho de sua tristeza, levantei e fui em sua direção, ela me abraçou e voltou a chorar, fiquei alisando seus cabelos e sentindo seu perfume, um sentimento de carinho me invadiu e um pensamento me ocorreu.

- Seu noivo lhe bateu?

Ela me olhou assustada e imediatamente sentou-se.

- Não... eu fui assaltada!

- Ok... e você não foi a polícia fazer um B.O., não te roubaram nada e ainda te bateram e mesmo assim, seu noivo está bem, sabe, difícil de acreditar!

- Já disse, não achei necessário e não tiveram tempo de levar nada.

- Certo Isabel, quando estiver se sentindo melhor, quero conversar contigo.

Na hora do almoço decidi não tocar no assunto do “assalto”, fui direto ao assunto da empresa, tentando não assusta-la.

- Isabel, vou ser franco com você, precisa ser mais firme com o pessoal, ter voz mais ativa, exigir e mostrar que tens condições de dar ordens, do contrário vai ficar complicado, daqui a pouco não estarei lá para te ajudar e não quero ter que falar com Dona Magda sobre isso na hora do meu parecer.

- Eu vou tentar Felipe.

- Não, tentar não vai adiantar, você terá que agir, ter outra postura. Postura de uma líder.

- Eu preciso deste emprego.

- Então lute por ele, sei que você é capaz, não vou te deixar sozinha, vou te dar apoio sempre que puder, mas você vai ter que mudar seu jeito de agir com o pessoal, tente unir seu jeito meigo com energia, funciona.

Ela começou a chorar e eu institivamente coloquei a mão no seu rosto e fiz um carinho, ela pareceu gostar e ficou de olhos fechados, parecendo adormecer com aquele gesto de carinho.

Três semanas passaram-se depois da nossa conversa, que por incrível que pareça, surtiu efeito, pois ela passou a falar mais alto e a se impor, chegando inclusive a bater de frente com os funcionários mais antigos e de pouca vontade e ao mesmo tempo conquistou a todos com seu jeito meigo, porem cada vez mais ela aparecia com hematomas, roxos e partes doloridas pelo corpo, tentava disfarçar, mas comigo não conseguia; um dia ela não aguentou e acabou se abrindo para mim, me contou que seu noivo era possessivo, ciumento, violento e a tratava como uma posse dele, lhe agredia por qualquer motivo e lhe traía em sua frente sem o menor pudor e ele era o seu primeiro namorado.

- Porque você não denuncia ele, existe leis que te protegem!

- Eu tenho medo e será que protegem mesmo? Quantas mulheres morrem mesmo tendo denunciado e ter conseguido medidas protetivas? Não é uma decisão assim tão fácil.

- Então se separa dele.

- Ele me ameaça, diz que se eu me separar, ele me mata! – Ela estava apavorada e tremia.

O problema é que eu estava apaixonado por ela e aquela situação me deixava furioso, como é que alguém pode maltratar uma pessoa tão delicada, meiga e dócil, mesmo com minha ex-esposa que brigava muito, nunca chegamos nem perto das vias de fato e mesmo assim os xingamentos machucavam; acabei comentando com minha ex e ela também ficou revoltada, me aconselhou a conquista-la, pois achava que ela também estava gostando de mim e que talvez isso poderia lhe dar coragem para acabar esse relacionamento tóxico. Com o passar do tempo ficamos amigos íntimos, trocávamos confidencias e começou a rolar algum tipo de carinho, nada muito profundo, apenas abraços, carinhos no rosto e afagos nos cabelos.


CONTINUA...

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