Um Dia Qualquer para a Eternidade
Era um dia normal no hospital geral, se é que se pode dizer
que existe um dia normal em um hospital, emergência lotada, pessoas gemendo,
tossindo, chorando, sangrando, parentes em busca de notícias, família desesperadas
com a perda, como foi dito antes, talvez não exista um dia normal em um
hospital.
Na lancheria, onde as pessoas procuravam um pouco de
alimento e também momentos para refletir sobre suas vidas, um homem de estatura
baixa, cerca de um metro e sessenta e cinco, ligeiramente calvo no topo da
cabeça e os restantes de cabelos já grisalhos, já com seus quarenta e oito
anos, estava sentado em um canto, tomando uma xicara de café calmamente. Ele
levanta os olhos e vê seu amigo de muitos anos chegar, levanta-se cordialmente
e o cumprimenta.
- Dr. Otávio, que bom vê-lo por aqui!
Doutor Otavio parece surpreso com o amigo.
- Dr. Elias, o que fazes aqui?
- Senti uma vontade enorme de tomar café, sente-se, me
parece cansado!
- Como se você não soubesse, acabei de sair de uma
intervenção cirúrgica que durou quase dez horas.
- Mas ocorreu tudo bem?
- Que nada, desta vez perdi a batalha.
- É, faz parte da nossa profissão.
Doutor Otávio coloca a mão no queixo e fica pensativo, era
um grande ser humano e ficava sempre abatido quando perdia um paciente.
- Não fica assim Otávio, nem sempre podemos salva-los.
- Não é isso Elias, hoje na sala cirúrgica tive uma
surpresa.
- Que surpresa?
- Eu vi a morte na sala.
Doutor Elias dá um salto na cadeira, suas feições realmente
é de uma pessoa muito assustada.
- Não brinca com isso, é pecado e antiético.
- Para de sarcasmo Elias, a visão que eu tive foi
significativa, eu estava de um lado da mesa operatória, tentando salvar uma
vida e ela estava do outro lado, esperando o desencarne, vida e morte lado a
lado, entende?
- Mas é claro... que não! – Exclama Doutor Elias. – Otávio,
sei que tu é espírita, mas por favor, não me venha com loucuras.
- Sim, sou espírita assumido e não é nenhuma loucura.
- Meu amigo, estudamos medicina nas melhores universidades,
fomos preparados para lidar com a vida e a morte e não para vermos fantasmas,
ainda mais a morte. – Pondera Doutor Elias.
Uma pessoa se aproxima dos dois e cumprimenta o Doutor
Otávio, após uma breve troca de meia dúzia de palavras, vai embora.
- Oi para você também, mal educada, tu viu isso Otávio, ela
nem me olhou.
Doutor Otavio dá um leve sorriso e os dois voltam ao
assunto.
- Meu deus Otávio, o que houve contigo com esses papos
loucos, acho que você precisa de férias.
- Não é loucura, quantas vezes você já presenciou pacientes
terem melhoras repentinas e três dias depois morrerem?
- Várias, chama-se melhora antes da morte, mas não tem nada
a ver, inclusive eu lembro de uma paciente seu, que já estava moribundo e um
dia ele acordou lucido, você pediu para os parentes irem descansar e abriu
todas as janelas do quarto, no final do dia o pobre homem morreu.
- Pois então Elias, as pessoas ficavam em volta dele orando
para ele não partir, o que impedia o seu desencarne e ainda mais num quarto
todo fechado, quando elas foram embora e eu abri as janelas, ele pode fazer a
passagem.
- Não sei Otávio, isso não me parece normal.
- Elias, quantas vezes você já ouviu pacientes terminais
relatarem que alguém está ali para lhe buscar?
- Muitas vezes, mas isso não prova nada, é só alucinação.
- Pelo contrário meu amigo, isso prova muita coisa, prova
que existe vida além da morte, se não qual seria o sentido de viver essa vida,
de passar por percalços, alegrias e tristezas, porque lutar, se vai ter um fim
para sempre?
- Talvez sim, talvez não!
- Meu amigo Doutor Elias, do que nós simples seres humanos
mais temos medo?
- Acho que é da morte!
- Exato! E porque temos tanto medo do inevitável?
- Inevitável?
- Sim Elias, a morte é inevitável, não conseguimos driblar a
morte, quando as nossas energias se esgotam e nossa missão chegou ao fim, nos
desencarnamos, mas espera ai, é o fim?
- Acredito que sim! – Responde Doutor Elias.
- Não meu amigo, não é o fim, é apenas a libertação desse
involucro que é nosso corpo, é o fim da nossa expiação, então eu volto a lhe
perguntar, porque temos medo de morrer?
- Sinceramente, não sei.
- Elias, nos nunca
fomos preparados para morrer, a morte sempre foi uma forma de castigo, algo que
deveríamos temer e temer muito, sempre foi representado na figura de uma
senhora, as vezes bela, as vezes com a cabeça de uma caveira, com uma toga
preta e uma grande foice nas mãos e assim nós sempre fomos assustados com a
morte. Quando éramos pequenos, nos diziam que se não fossemos bom, iriamos para
o inferno, virar cozido dos demônios, isso era o cumulo do absurdo para querer
o respeito das crianças, em vez de ensinar, preferiam colocar o medo.
- Falando assim, até fica fácil de entender. – Fala sorrindo
Doutor Elias.
- Pois é, nos falta entender a morte, pois tente imaginar
como seria o mundo se as pessoas não morressem, tente visualizar o mundo com bilhões,
trilhões de pessoas amontoadas, seria caótico, não haveria leis ou organização
que dessem conta de tantas pessoas, provavelmente viveríamos como selvagens,
brigando por territórios e alimentos, alimento esse que seria muito escasso,
com tantas pessoas para alimentar.
- Isso é bem assustador. – Concorda doutor Elias.
- E também é egoísmo da nossa parte querer viver mais e mais
egoísta ainda é querer que aquele nosso ente querido, que está sofrendo numa
cama, não tenha o direito de descansar de suas chagas, de seu sofrimento,
porque o relógio para quando suas pilhas perdem a energia, e nós também.
Devemos pensar e aceitar que com a morte nada acaba, não deixamos de existir,
pois qual seria o sentido de tudo isso, se de repente tudo acaba, Deus não nos
daria uma vida para simplesmente acabar, qual a vantagem desta existência?
Quando desencarnamos apenas trocamos de lado, trocamos de plano, deixamos esse
corpo que Deus nos empresta e voltamos a viver livre, pois nosso corpo é apenas
uma embalagem com prazo de validade. Quando morremos, significa que nascemos em
outro plano, significa que nossa missão neste mundo acabou e que devemos voltar
para o nosso verdadeiro lar que é o plano espiritual e vamos retornar e
retornar, até que não tenhamos mais pendencias neste plano.
- Me responde uma coisa Otávio, porque tantas pessoas boas
morrem e outras muito ruins sobrevivem?
- Boa pergunta, porque as pessoas boas tem uma expiação
pequena, não tem muito a acertar e já aprendeu o suficiente, mas as pessoas
más, essas tem que ficar, aprender muito, saldar algumas dividas e reencarnar
muitas vezes, até se libertarem e se não aprenderem, voltaram de novo e de
novo, até que consigam se redimir dos erros. Temos medo da morte, porque
achamos que só temos uma vida, nascemos, crescemos e morremos e fim, quando
entendemos que não é só isso, tudo fica mais fácil, teremos receios, sofreremos
com a morte dos parentes, mas aceitaremos mais fácil e tudo isso pode começar
com uma simples oração. Agradecer a Ele por tudo e nunca olhar apara traz,
porque é na frente que tudo acontece, seja aqui ou em outro plano.
Doutor Elias estava pensativo, aquelas palavras acertaram fundo
o seu coração e ele com lágrimas nos olhos fala.
- Agora que isso tudo foi dito, me lembrei da minha
filhinha, que se foi muito nova e me lembro de que pouco antes dela morrer, ela
sorriu e seus olhinhos brilharam, na minha esperança de pai, achei que ela
estava melhorando, mas... pouco tempo depois ela morreu, e agora aqui com essa
conversa, eu me pergunto se ela está bem, se eu vou revê-la novamente, cara,
essa conversa mexeu comigo.
Doutor Otávio olhou carinhosamente para o amigo e lhe
perguntou.
- Meu amigo Elias, estamos em uma lancheria conversando a um
bom tempo e ninguém cumprimentou você ou percebeu a tua presença, notou isso?
- É verdade, agora que você falou, notei sim, é como se eu
não estivesse aqui.
- Outra coisa, você percebeu que você está de avental e não
de jaleco e de pés descalços?
Doutor Elias olhou para os pés, tocou no avental que
normalmente um paciente usa, balança a cabeça negativamente e suspira fundo,
olha para Doutor Otávio e pergunta?
- O paciente que você operou era eu?
- Sim, meu amigo, era você!
- Então estou morto? Eu não me sinto morto!
- Acho que não, afinal estamos aqui conversando!
- E agora? A morte vem me buscar?
- Ela não é a morte, é apenas um espirito que veio para
ajudá-lo na transição, na passagem, é o seu elo com esse mundo e o mundo
espiritual, normalmente é feito por alguém bem próximo, alguém que amamos
muito.
Os dois estão visivelmente emocionados, Doutor Otávio tenta
segurar as lágrimas, quando uma voz suave se ouve.
- Papai, vamos embora, está na hora da partida.
Doutor Elias se esvai em lágrimas, quando vira-se e vê sua
filhinha tão amada, brilhante como o sol, rosto angelical e um sorriso tranquilizador.
- Minha filha é você? Deus, obrigado, eu estava com tanta
saudade, sofria tanto e nunca pude te dizer como eu te amava.
- O seu amor sempre chegou para mim, as suas vibrações
positivas me ajudaram muito e também te amo meu pai, mas agora temos que ir.
- Vamos minha filha.
Os dois saem caminhando lentamente, de mãos dadas, uma luz
enérgica envolve os dois e Doutor Otávio fica observando choroso.
- Adeus meu amigo, felicidades nesta nova jornada.
Os dois para e olham para traz num último adeus.
- Adeus meu amigo e obrigado por tudo.
Ele fica observando os dois desaparecerem e agradece a Deus
por esse momento.
FIM?

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