Memórias

 

Parece estranho eu estar aqui sentado de frente para o mar, na mesma duna em que estive pela primeira vez, isso faz tanto tempo, trinta, quarenta, cinquenta anos, sim, faz exatamente cinquenta anos em que estive aqui pela primeira vez, faz cinquenta anos em que vi ela pela primeira vez, linda, maravilhosa, uma moça esguia de dezoito anos, alta para os padrões femininos, um metro e setenta e seis, cabelos pretos compridos, olhos castanhos, lembro-me que vestia um sunquini cor de rosa, lembro a sensação que tive, foi amor à primeira vista, mas minha memória não é mais a mesma, essa não foi a primeira vez.

Eu trabalhava em um restaurante como cozinheiro e lembro-me que atrás deste restaurante construirão uma casa muito bonita e que ali seria a casa de veraneio de uma família, que na verdade era dona do terreno, um certo dia estava eu encostado na parede ao lado da porta de entrada da cozinha, fumando meu cigarrinho, num raro momento de descanso, quando um carro estaciona ao lado do restaurante, de dentro sai uma mulher obesa e uma outra senhora, mais velha, a terceira pessoa a sair é uma rapaz e por fim, uma garota, juro por deus que eu congelei no tempo, ela era linda, parecia um anjo que havia de cair do céu, meu coração palpitou tão forte que achei que teria um enfarte aos vinte e seis anos, fiquei ali parado, estático e nem percebi que haviam me cumprimentado.

Com o passar dos dias descobri que ela era filha da dona do terreno, um jovem de dezoito anos, estudante de odontologia e durante umas três semanas eu ficava observando ela passar, até o dia em que ela me notou; com o passar do tempo nos tornamos amigos e um dia tomei coragem e a convidei para sair, fomos para um barzinho e passamos a noite toda conversando e eu estava perdidamente apaixonado, na volta para casa tomei coragem e lhe dei um beijo e selamos o nosso amor. Por um tempo namoramos escondidos de sua mãe, mas a sua avó sabia e nos dava força e oportunidade de nos encontrarmos, com o tempo é claro que sua mãe descobriu e eu a enfrentei e lhe disse as minhas intenções, lembro-me que fui humilhado por ser pobre e cozinheiro, mas mesmo assim não desisti e mesmo contra a sua vontade, namoramos e noivamos.

Mas como diz o ditado que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, conseguiram nos separar, um dia, um sábado qualquer, quando fui a sua casa, ela me esperava no portão com uma cara triste, perguntei o que estava acontecendo, mas para falar a verdade nem precisava dizer, seus olhos tristes já diziam tudo e ela acabou ali mesmo no portão, sem mais e nem menos, o golpe foi duro, voltei para casa arrasado, sem saber ao certo o que tinha acontecido, meu mundo desabou em minha cabeça, tudo ruíra em cima de mim, é difícil descrever tal sentimento e uma semana depois, uma garrafa de whisky e um quarto totalmente quebrado, voltei para a vida “normal”. No ano seguinte foi pior, bem pior, pois ela estava de namorado novo e fiquei o verão inteiro olhando os dois passarem de mãos dadas, mas eu percebia que ela sempre me olhava pelo canto dos olhos, foi o veraneio mais triste da minha vida.

Levei mais de dois anos para me recuperar, para ter outro relacionamento, mas o tempo cura qualquer ferida e aos poucos fui aceitando, mas nunca esquecendo, tive outros relacionamentos até que me casei, formei uma família e o tempo foi passando, meus filhos cresceram, fiquei viúvo, mas nunca, repito, nunca esqueci dela, durante esses cinquentas anos fiquei lembrando do olhar, do sorriso, alimentando quem sabe um dia reencontra-la.

E hoje estou aqui no mesmo lugar em que nos vimos pela primeira vez e quando saio dos meus pensamentos, estou em frente à sua antiga casa da praia, o terreno com mato alto e a casa totalmente envelhecida, para falar a verdade está em ruinas, mas na minha cabeça, na minha memória, vejo tudo como era cinquenta anos atrás e chego a vê-la toda bonita e graciosa na porta da casa me olhando e me pergunto por onde ele andará neste momento, baixo minha cabeça e deixo as lágrimas caírem em meu rosto e saio caminhando lentamente, como um velho apaixonado de setenta e seis anos e eu sou esse velho, quando escuto uma voz suave atrás de mim, me chamando.

- Otávio.

Viro-me lentamente e lá está ela, pisco os olhos repetidamente, meu coração pulsa como se eu ainda fosse jovem, inacreditavelmente ela está me olhando, linda como sempre foi, aqueles olhos que eu me apaixonei, aquele rosto angelical que me fez sofrer por cinquenta anos, ela não tinha mudado nada, não tinha envelhecido um dia sequer, como é possível, eu estava um velho gagá e ela estava parecendo ainda ter dezoito anos.

- Sophia meu amor, como pode isso?

Ela me olhou com carinho e estendeu sua mão, quando a toquei senti sua energia através do meu corpo, minhas costas pararam de doer, minhas mãos pararam de tremer, meus olhos estavam vendo tudo nítido, senti meu corpo ficar esguio e minhas memórias retornarem todas de uma vez mais, toquei meu rosto e minha barba preta estava lá, eu tinha cabelos novamente, parecia que eu estava com vinte e seis anos novamente; olhei-a emocionado, com lágrimas nos olhos e não consegui dizer outra coisa.

- Eu te amo Sophia!

- Eu também te amo Otávio, vamos ter muito tempo para ficarmos juntos, agora vamos embora, seu tempo aqui terminou e sua missão momentaneamente acabou, é hora de descansar.

E assim, logo que apareceu uma luz brilhante, eu parti de mãos dadas com ela, todo feliz, apaixonado como sempre fui, pois tudo nesta encarnação tem fim, mas a única coisa que é eterna é o amor.

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