EVA - REDENÇÃO - Capitulo 2
Repentinamente uma dor forte surgiu em meu peito, meu braço
começou a arder em brasa e sangue escorreu entre meus dedos, senti a picada da
agulha, o coração disparar, a visão turvar e tudo ficar escuro e então recordei
de estar olhando meu corpo branco e esquelético com uma seringa cravada no
braço, jogada em um sofá velho, vultos negros apareceram em minha volta e
começaram a puxar-me pelos braços, um deles era o Tom, o cara que me apresentou
as drogas e me prostituiu.
- Venha Eva você sempre será minha. – sussurrou ele em meu
ouvido.
- Vou te dar mais drogas, vamos ficar juntos.
Depois disso tudo o que lembro é escuridão, sujeira e
sofrimento, até que uma luz forte surgiu e os afugentou, uma mão tocou em meu
peito e a dor passou.
- Era você e Milton, vocês me salvaram.
- Não Eva, seu arrependimento e suas orações é que te
salvaram.
- Eu não entendo.
- Quando você morreu, foi para um lugar chamado Umbral, um
lugar em que encaramos os nossos erros, pode ser por muito tempo ou não, mas
também pode ser salva, como você foi, foi lá que viu as sombras e Tom, eles
continuaram de assombrando até você pedir socorro.
- Eu estava no inferno e Tom é um demônio?
- Não existe inferno ou demônios, quando se comete muitos
abusos em vida, ao morrermos vamos para esse lugar o Umbral, lá vivenciamos
tudo o que fizemos de errado, os espíritos maus ficam lá, não querem ser salvos
e tentam arrebatar a maior parte de espíritos possível para escravizar e sugar
suas energias, eles também perambulam pela terra, sussurrando coisas erradas
nos ouvidos das pessoas e se alimentando de suas energias, foi assim que você
se perdeu e agora Tom é um deles, ele sempre foi mal e impossível muda-lo no
momento, mas um dia ele também irá se arrepender.
- Realmente Tom me fez muito mal, me levou as drogas, abusou
sexualmente de mim, me bateu, mas... Eu também sou culpada, fui fraca, quis me
vingar do meu pai e não pensei em minha mãe, eu errei muito.
- Mas você reconhece o seu erro e isso foi um fator muito
importante para você estar aqui, vamos voltar Eva, tem uma pessoa que quer ver
você!
Voltamos para o jardim como se nunca estivéssemos saído,
Zulmira pegou-me pela mão e saímos a caminhar, o lugar era mesmo incrível,
muito verde e pessoas que conversavam animadamente, tocavam músicas e sorriam a
todo instante, chegamos num lugar com muitos chalés, simples e bonitos, eram
pintados nas cores azul céu e as janelas e portas de branco, o telhado era de
palha santa fé e todas tinham um jardim florido com um pequeno chafariz,
entramos no primeiro chalé da fileira, por dentro a simplicidade era magnifica,
as paredes tinham a cor salmão, os sofás eram brancos e no centro da sala tinha
uma pequena mesa de madeira com quatro lugares, também havia quadros pendurados
com paisagens da natureza.
- Pelo jeito a jovem gostou do chalé!
Olhei para o lado e vi um senhor de cabelos totalmente
brancos, olhos verdes e um semblante sereno com ar de sabedoria.
- Gostei sim senhor.
- Meu nome é Irineu e estou a sua disposição, vamos
conversar, Milton está chegando, por favor, sente-se.
Sentamo-nos e fiquei observando-os por um tempo, eles eram
tão bonitos, tão inteligentes e... Tão parecidos?
- Vocês são parentes?
Pela primeira vez desde que cheguei aqui eu vi ele rirem, me
senti uma idiota, até que Milton falou.
- Você é muito observadora, apesar de aqui todos nós sermos
irmãos, em vida fomos pai, mãe e filho, quando nos encontramos aqui, decidimos
manter nossas aparências carnais. Achei graça também, quando de súbito um
pensamento me veio em mente e falei alto.
- Se estou aqui, meu pai está também?
Silêncio total, eles se entreolharam e percebi que esse era
o assunto que queriam falar comigo, Irineu foi quem quebrou o silêncio.
- O que você sente pelo seu pai?
- Sinto raiva, desprezo, nada mais que isso!
- Isso é um problema. – disse Milton.
- Por quê?
Zulmira me olhou tristemente e colocou as duas mãos sobre a
mesa, me fitou e disse.
- Você tem uma missão, para que todos os seus pecados sejam
perdoados, mas é algo que tens que fazer como coração.
- E que missão é essa?
Irineu respondeu.
- Rodolfo não foi nenhum exemplo de bondade, nós sabemos bem
os males que ele causou, quando ele morreu foi para um lugar chamado Limbo,
onde foi escravizado e sofre todo tipo de tortura, ele está sofrendo muito e
precisa de ajuda, vocês dois só terão paz no coração e descanso na alma quando
se perdoarem.
- Ele já me pediu perdão e eu neguei.
- Nós sabemos. – disse Milton. – Quando você negou o perdão,
naquele momento os vultos negros o levaram.
- Vocês estão dizendo que sou culpada por ele ter se
perdido?
- De maneira nenhuma. – negou Zulmira. – O que estamos
querendo dizer é que o seu perdão o salvará, tende canalizar sua raiva e pensar
que bem ou mal ele foi seu pai e precisa de você.
- Sinto muito!
Após estas palavras levantei-me e sai do chalé, caminhei em
linha reta e acabei chegando em um riacho, sentei-me na grama e chorei, de
alguma forma as palavras deles me tocaram, Rodolfo era meu pai, isso é
inegável, mas para mim ele era um monstro, não conseguia enxergar de outra
forma.
- Você não devia estar sofrendo!
Olhei para o lado e vi um garotinho loiro, não mais que oito
anos, estava sentado ao meu lado, vestia uma túnica azul claro e tinha os olhos
muitos brilhantes.
- Você é muito novo para entender de sofrimento.
- Talvez na aparência eu seja muito novo, mas estou há muito
tempo aqui e aprendi muito.
- Quem é você?
- Meu nome é Nithael.
- O meu é...
- Eva, eu já sei.
Não me surpreendi com o fato de ele saber o meu nome,
parecia que todos me conheciam, menos eu.
- Está escutando Eva?
- O que?
- Me de sua mão e feche os olhos, procure não pensar em
nada.
Então escutei:
“senhor!
Sei que sou uma velha pedinte, mas ajude a minha filha e o meu marido, eles
sofreram tanto em vida que merecem um descanso, não se preocupe comigo, pois me
viro, só quero o bem deles.”
Fui tomada por uma forte emoção, lágrimas caíram
descontroladamente pelo meu rosto e ao soluços falei para Nithael.
- Minha mãe está rezando por nós.
- Eu sei Eva, sua mãe é uma pessoa especial.
- Ela reza pelo meu pai, mesmo ele sendo mal para ela.
- Sua mãe amava seu pai, mesmo com todos os defeitos dele e
te amava, mesmo com todos os seus defeitos.
Olhei-o diretamente, eu não havia pensado nos meus defeitos,
nas coisas que eu fiz, também a fiz sofrer, também errei e muito.
- E mesmo assim ela reza por mim Nithael.
- É justamente esse amor, essas orações que lhe salvaram,
mas não salvaram o seu pai, porque faltou algo.
- Faltou o meu perdão, meu amor.
- Exatamente.
- E como se faz para perdoar alguém que nos feriu muito?
Como amar alguém que nunca demonstrou amor?
- Isso Eva, só o seu coração poderá lhe responder!
- Não consigo ver como?
- Na hora certa, veras!
Ele levantou-se e sua presença era impactante, parecia ser
onipresente, onipotente, na realidade parecia ser um anjo, ele me olhou
graciosamente e disse.
- Vou realizar um desejo seu.
- Qual desejo?
- Você sabe! Feche os olhos.
Fechei os olhos e senti sua mão agarrar a minha, meu corpo
parecia levitar e sentia a brisa acariciar o meu rosto, minha mente se
deleitava com aquela sensação.
- Eva é você?
CONTINUA...

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