O Perfume
Canoas,
Cinco de Outubro de 1999, um dia quente para a época do ano, eu estava me
dirigindo para o trabalho em Porto Alegre, uma curta viagem de metrô, uns
trinta minutos mais ou menos.
Para variar os vagões estavam todos
completamente lotados, um festival de conversas, cotovelos, empurrões e odores,
numa aglomeração de pessoas, o pior são os odores. Ao meu lado tinha uma obesa
conversando, o cheiro de gordura suada era nauseante e como diz um amigo meu: “nada é tão ruim que não possa piorar”, e
para piorar, em minha frente tinha um cara, cujos os poros exalavam cachaça, e
era apenas sete e quinze da manhã e eu estava quase vomitando. A viagem parecia
interminável, quando repentinamente eu senti um cheiro suave, gostoso e
excitante, olhei para os lados para tentar descobrir de onde vinha aquele
perfume, mas para o meu azar, o trem parou e as portas se abriram, nessa hora
as pessoas parecem uma manada descontrolada correndo porteira a fora. Tentei
achar a pessoa que estava com aquele perfume, quando notei uma loirinha
descendo as escadas rolantes, blusinha branca, mini saia de brim, pernas bem
torneadas, seios pequenos e eretos, quando ela me olhou... nossa, como era
feia, olhos esbugalhados, nariz grande e redondo e uma boca enorme com dentes
desalinhados, isso sem contar as milhares de espinhas no rosto, com diz um
amigo meu, “chuta que é macumba”.
Decidi segui-la, pois mesmo assim queria
descobrir que perfume era aquele, ela atalhou por dentro do Mercado público e
então tudo piorou, pois praticamente o cheiro do perfume desapareceu, só
conseguia sentir um cheiro forte de peixe, que vinha de dezenas de bancas do
mercado, fora a gritaria dos vendedores, acho que quem trabalha ali deve ficar
surdo com o passar do tempo e rouco é claro. Quando saí de dentro do mercado,
me deparei com uma multidão, indo e vindo, eu estava na praça Glênio Peres e o
pior foi perder a loirinha de vista, mas pelo menos o cheiro melhorou, agora
sentia apenas um leve cheiro de urina, dos indigentes que dormem ali a noite.
Um rapaz passou por mim e senti o cheiro do
perfume novamente, lá fui eu de novo atrás de uma figura pra lá de estranha,
usava botas, calça e camisa, tudo preto, uma corrente era usada como cinto,
outra ficava pendurada nos bolsos, vários brincos nas orelhas, piercing nos
lábios e nariz, os lábios por sinal pintados com um batom preto e os olhos
tinham rímel da mesma cor e para terminar uma franja enorme cobrindo metade do
rosto. Não acreditei naquilo, eu estava seguindo um Emo, ele subiu em um ônibus
e eu fui atrás dele, com muita coragem sentei-me ao seu lado, ele me olhou e eu
congelei, me deu vontade de lhe dizer, “mim
ser de paz, não ter nada contra os da sua espécie”, mas fiquei calado.
Acabei cochilando e quando me dei por conta
o cara já tinha descido, eu estava passando pela redenção, puxei a campainha e
desci, foi quando eu senti o perfume novamente, olhei em volta e vi uma mulher,
pra lá de esquisita por sinal, pela cor dos seus lábios, aquilo não podia ser
batom, acho que era tinta acrílica vermelho Ferrari, comecei a segui-la e ela
me notou, parou e veio em minha direção, começou a me falar dos seus problemas
com sua mãe, incrível, mas ela ainda tinha uma mãe, pois aparentava ter uns
setenta anos, será que a mãe dela era a Dercy?
Meus tímpanos começaram a doer, quando uma
viatura da Brigada Militar parou ao nosso lado, os policiais saíram e a
colocaram na viatura, um deles me olhou com desprezo e disse, “é louca!”, acho que ele pensou que eu
estava cantando a velha, eu mereço, fiquei pasmo, eu estava conversando com uma
louca.
Olhei o relógio e era quase meio dia, não
fui trabalhar, descobri que eu estava encrencado no trabalho, ia dizer o
que?
Voltei para casa, já tinha perdido o dia
mesmo, chegando lá fui tomar um banho, quando fui tirar a camisa tive uma
surpresa, o perfume estava nela, então lembrei que tinha ganhado de aniversário
de minha namorada e foi a primeira vez que usei. Bom, pelo menos eu conheci muita
gente interessante e esquisita também, sentei e comecei a rir, quando minha mãe
me viu perguntou-me porque eu ria tanto, respondi:
- Como é burro esse meu cavalo!

Comentários
Postar um comentário