EVA - REDENÇÃO - Capitulo 3
Abri os olhos e minha mãe estava a minha frente, deitada em
um leito de hospital, havia acontecido alguma coisa depois que a vi no
cemitério, estava doente.
- Mãe o que houve?
- Só estou velha, você está bem? E o seu pai?
- Estou bem mãe, aprendendo com os meu erros.
- Cuide do seu pai, aprenda a perdoar, lhe peço isso para
que eu possa descansar em paz.
- Mãe te amo tanto, me perdoa por favor.
- Um filho já nasce perdoado Eva. Sei que seu pai fez coisas
muito erradas, disse coisas que magoaram muito, mas quem de nós nunca errou?
Quem de nós não comete exageros? Pense nisso por favor!
- pensarei mãe!
Nithael tocou-me a testa e adormeci, quando despertei pensei
ter sido um sonho, era melhor assim, retornamos para a cidade espiritual e
permaneci em silêncio.
- O que houve Eva?
- Minha mãe parecia fraca, sem forças.
- A energia dela está acabando.
- Como assim?
- sSmplificando, quando nascemos temos uma carga de energia
que vai se extinguindo aos poucos, quando acaba voltamos ao mundo espiritual, nossa
tarefa está cumprida, isso também pode ser chamado de destino, entre outras
coisas.
- Entendo, gostaria de ficar sozinha um pouco.
- Você precisa mesmo, boa sorte Eva!
- Obrigado Nithael.
Ele desapareceu tão rápido que nem percebi, fiquei
caminhando por entre os bosques, eu tinha tomado minha decisão, só não sabia se
era certa, retornei para o chalé e sentei-me no sofá, tinha chegado a hora de
informar a minha decisão, quando percebi os quatro estavam em pé a minha
frente, levantei-me e comecei a falar.
- Não posso decepcionar minha mãe novamente, vou salvar
Rodolfo por ela ou ao menos tentar.
- Você tomou uma decisão e toda decisão requer muita
coragem, você deu um importante passo. – falou Zulmira.
- Espero que sim!
Milton aproximou-se de mim e colocou a mão em meu ombro e
falou calmamente.
- Terás uma semana para meditar, revigorar as energias, pois
vais enfrentar algo que poderá lhe trazer muita dor.
- Porque me diz isso?
- Quando você desencarnou, ficou cinco anos no Umbral, até o
dia em que pediu ajuda, algumas coisas que aconteceram podem voltar a sua
lembrança, queremos você forte.
Foi difícil descobrir que passei cinco anos neste lugar do
qual pouco me lembro, pois para mim até então eu nem sabia que tinha morrido ou
desencarnado. Os dias que se passaram antes da minha missão foram bem
tranquilos, aprendi a levitar, não precisava mais comer, pois a própria energia
me alimentava e principalmente, aprendi a usar a energia que estava dentro de
mim, agora eu podia fazer coisas incríveis, desde que fosse para o bem e isso
fazia me sentir calma, tranquila e feliz, porem chegou a dia fatídico, eu me
sentia forte, mas ainda tinha algumas dúvidas sobre a minha missão, não sabia
ao certo se queria realmente salvar meu pai.
- Essa incerteza não vai ajudar!
- Milton! Não vi você chegar.
- Você está pronta?
- Acho que sim, estou ansiosa e com um pouco de medo.
- É normal, pois só os tolos não sentem medo e você não é
tola.
- Alguém vai me acompanhar?
- Claro, Nithael vai com você!
- Mas ele é uma criança.
- Eva, Nithael é uma criança muito velha e muito experiente,
é a pessoa ideal para lhe acompanhar.
- Está certo.
- Então vamos, estão nos esperando.
Fomos caminhando até o chalé, onde todos estavam me
esperando, cumprimentei-os e disse.
- Vamos Nithael?
- Está determinada e isso é bom.
- Boa sorte Eva. – disse Zulmira.
Todos me abraçaram e também a Nithael, fomos nos afastando e
pouco a pouco a paisagem foi mudando, de verde e ensolarado, para escuro e
sombrio, senti um frio infinito, começamos a caminhar e a cada passo dado à
paisagem era cada vez mais assustadora, o Umbral e o limbo eram dominados por sombras
e a luz que ali tinha era quase insignificante, no céu predominava as nuvens
escuras e cinzas, a vegetação era rala, com árvores sem folhas e semimortas,
agua somente com lama, impura, suja, sem condições para qualquer uso, eu vi
pequenos monstros alados atravessarem o céu e aves agourentas pousadas nos
galhos mortos das árvores.
- Esse lugar é terrível Nithael!
- Talvez Eva, mas não é diferente de algumas almas.
Repentinamente imagens vieram a minha mente, sangue, sexo,
violência e drogas, me contorci de dor, minha boca ficou seca, eu precisava de
uma dose, meus pensamentos ficaram distorcidos, foi quando eu ouvi uma risada
muito conhecida e uma voz inconfundível.
- Então a menina envergonhada voltou? Sentiu minha falta?
- Tom, porque está fazendo isso?
- Eu não estou fazendo nada, você é quem está fazendo.
- Você me enganou se aproveitou da minha fragilidade e
ingenuidade.
- Isso lá é verdade, mas você quis, eu só lhe encaminhei.
- Tom, pare com isso, você ainda pode ser salvo.
- E quem lhe disse que quero ser salvo? –Este é o meu mundo,
sempre foi e você ficará aqui comigo.
Olhei para Nithael, mas ele não tinha reação alguma, só
ficou parado olhando sem demonstrar medo ou qualquer tipo de sentimento.
- Você agora será minha para sempre.
- Não Tom, não serei nunca mais sua!
Ele deu uma gargalhada alta e partiu para cima de mim, sua
mão tocou meu peito e uma dor lancinante fez com que eu gritasse muito alto,
ele pegou-me pela mão e me lançou de encontro a uma árvore, se eu fosse viva
certamente teria morrido, ele voltou a investir e começou a dar socos em mim,
sem dó nem piedade, quando cansou de bater, ficou parado a minha frente
sorrindo.
- Mesmo aqui Eva, você ainda é fraca e ingênua, como eu
disse você é minha.
Fixei meu olhar no dele e levantei-me devagar, parei em sua
frente e disse.
- Não Tom, não sou mais.
Coloquei as duas mãos em sua cabeça e ele começou a gritar
desesperadamente.
- Sinta toda a dor que eu senti Tom.
Continuei a segurar-lhe a cabeça e coloquei uma mão em seu
peito.
- Você precisa de um pouco de paz no coração Tom.
Ele empurrou-me com força e saiu caminhando aos tropeços, me
xingando e falando palavras sem nexo, olhei para Nithael e ele estava sorrindo.
- O que foi isso? - Perguntei
- Você tem uma força extraordinária, nem Tom aguentou a sua
luz.
- Foi por instinto!
- Eu sei, você usou algo que eles detestam, abominam, a sua
benevolência, tenha certeza que Tom nunca mais vai lhe importunar.
- Porque você nada vez?
- Eu sabia que você ia resistir, só não sabia que seria com
essa força maravilhosa.
Eu sorri para ele, estava orgulhosa comigo mesmo, ele fez um
sinal para que continuássemos, na medida em que avançávamos a visão ia ficando
cada vez pior, um cheiro forte de podridão exalava de todos os lugares,
milhares de espíritos vagavam de um lado para o outro, sendo açoitados por
terríveis monstros das sombras, outros comiam a própria carne e vomitavam, uma
verdadeira cena de terror, Nithael me olhou e disse.
- Estamos agora no limbo, onde se paga os pecados da pior
maneira possível.
Nada respondi, pois estava assustada demais e ele parecia
perceber isso, paramos em frente a uma casa velha, caindo aos pedaços, era
escura e dava medo só de olhar.
- É aqui Eva!
Quando fui perguntar o que fazer, um ser grotesco de ar
repugnante saiu para fora da casa, atrás dele uma horda de pequenos monstros e
sombras se perfilaram, sua voz ecoou como um trovão.
- O que vocês querem aqui?
Nithael olhou-me e tomou a frente.
- Viemos buscar um desencarnado que aqui está.
O monstro riu alto e debochadamente e tive a impressão que
pequenas faíscas saíram de seus olhos.
- Ninguém sai daqui, ninguém deixa meus domínios.
- Ele é meu pai e vim salva-lo. – falei corajosamente.
- Se ele está aqui é porque mereceu e não deve ser salvo ou
talvez não queira, é melhor irem embora enquanto tem tempo, pois preciso de
novos escravos.
- Ninguém vai embora. – Bradou Nithael. – Viemos para uma
missão e iremos cumpri-la.
As hordas do monstro nos cercaram e pela primeira vez um
medo terrível se apossou de mim, tive vontade de sair correndo, olhei para
Nithael e ele não se mexia, estava imóvel, quando o monstro bradou.
- Acabem com eles!
Olhei para Nithael e ele estava de olhos fechados, seu corpo
começou a brilhar intensamente, a horda de monstros hesitaram e quando ele
abriu os olhos um clarão violento, como se fosse uma supernova fez com que
todos eles desaparecessem instantaneamente, quando consegui enxergar novamente
ele estava de frente para o monstro mestre que tinha uns dois metros de altura
e Nithael um e meio mais ou menos.
- Não pode ser?- urrou o monstro. – Nithael!
- Surpreso em me ver Alastor?
- Você não deveria estar aqui, este é o meu domínio.
- Mas estou e vou lhe pedir uma última vez, devolva a alma
que viemos buscar.
A voz de Nithael não era mais a mesma, era forte, alto, algo
quase celestial.
- Você não pode me obrigar! – disse o tal de Alastor.
Nithael nada falou, apenas ergueu o monstro com uma só mão e
o lançou contra a parede, caminhou até ele e o pegou pela garganta, raios
saíram dos seus olhos atingindo Alastor que urrou de dor.
- Chega leve o desencarnado, mas pare de me torturar, vai me
destruir.
Ele o largou ao chão e caminhou em minha direção, falou com
uma voz imponente.
- Agora é com você!
Entrei na casa e o cheiro de podre se misturava com a
umidade, havia vários quartos e em todos eles se ouvia gemidos de dor e
desespero, parecia impossível, mas eu sabia exatamente onde estava meu pai,
algo me atraia para ele, continuei caminhando pelo corredor até chegar em uma
porta central, abri lentamente e fui tomada por uma visão terrível, meu pai
estava agachado num canto, sujo de fezes, de sangue, feridas abertas brotavam
de suas costas, ele chorava num uivo agoniante, me aproximei um pouco mais e
chamei-o.
- Pai!
Ele olhou-me assustado e começou a gritar, tinha um medo
terrível de mim.
- Afaste-se por favor!
Cheguei mais perto e o toquei, imediatamente uma imagem
terrível apareceu na minha cabeça, eu estava em pé a sua frente com um chicote
na mão, eu o açoitava furiosamente, dizendo palavras duras e xingamentos, humilhava-o,
berrava, chutava, eu torturava com prazer, quando tirei a mão tudo voltou ao
normal.
- Deus, o que foi que fiz?
Ajoelhei-me em sua frente, seu olhar medroso me assustava,
toquei o seu rosto carinhosamente.
- Pai, vim salva-lo!
- Por quê? aqui é o
meu lugar, fui muito mal para você e sua mãe, causei tanto sofrimento que vim
parar aqui, porque me tirar?
- Isso foi antes, agora não importa mais, venha comigo,
vamos acabar logo com isso, é só o senhor falar que se arrepende, por favor!
- Me perdoa Eva?
- Nos perdoamos papai, nos perdoamos!
- Eu me arrependo filha, quero ajuda!
Ele abraçou-me em lágrimas e pela primeira vez senti amor de
pai, naquele momento aprendi a dura lição que nunca é tarde demais para
perdoar, uma luz surgiu em nossa frente e Nithael se materializou, sorrindo nos
disse.
- Parabéns a vocês, isso sim é um grande conquista.
- Obrigado. – agradeci.
- Não agradeça, você superou todas as dores, magoas, duvidas
e raiva do passado, agora vamos embora descansar e tratar do seu pai vamos sair
para sempre desse lugar.
CONTINUA...

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