O Ultimo Anjo

 

  O corpo estava estirado ao chão e ao seu lado havia uma pequena poça de sangue, o sol estava forte e iluminava seu rosto, seus olhos ainda estavam semiabertos, fitando o céu azul sem nuvens.

  Dizem que quando se está morrendo, recorda-se de tudo o que passou em vida, alguns discordam, pois alegam que não haveria tempo para tantas lembranças, outros dizem que só morrendo para saber, o que eles não sabem é que só se recorda o que marcou no coração. Mas para aquele jovem que estava caído ao chão agonizando, ás recordações eram mais que verdadeiras, eram o motivo para ele estar ali, respirando com dificuldade, com um revólver calibre 38 em suas mãos, onde o cano ainda estava quente e com um furo em suas têmporas. 

 

                                           *   *   *

 

  Havia muito tempo Rick Sucolotti morava sozinho, já se acostumara a ter a solidão por sua esposa, ele mesmo fazia suas próprias refeições, lavava suas roupas e mantinha a casa impecavelmente limpa. Com manias extravagantes, o seus guarda-roupa era curiosamente bem divido, nunca misturava roupas sociais com roupas esportes, camisas de manga curtas com mangas longas, etc.

  De certa forma, Rick se acostumou a viver sozinho e quando algum amigo ia lhe visitar e era convidado a passar a noite, logo depois ele se arrependia e começava a ficar nervoso, andando de um lado para o outro e ficava pior quando começavam a mexer em suas coisas. Quando ficava só novamente, ele sorria e começava a reorganizar a casa, mesmo que nada tivesse fora do lugar.

  Apesar de jovem, tinha apenas 30 anos, já era diretor de RH de uma grande multicional, respeitado pelos colegas, não gostava que lhe chamassem de senhor, mas sim pelo primeiro nome, pois para ele todos eram iguais como pessoas e não era o cargo que lhe fazia diferente dos outros e ele sabia usar a sua autoridade sem precisar rebaixar algum colega. Quando começou a trabalhar nessa empresa, o seu cargo era chefe de departamento e ele tinha 27 anos, logo que assumiu o cargo, no primeiro dia, convocou uma reunião de setores e em todos os discursos falou a mesma coisa, dizia que não tinha sido ser admitido e que até então tinha feito de tudo, desde empacotador de supermercado, até gerente financeiro. Dizia que seu objetivo principal era humanizar a empresa, onde os chefes e funcionários deveriam saber cada um, o seu devido lugar, produzir mais para ganhar mais. A princípio os diretores antipatizaram com a ideia, mas quando a empresa começou a produzir mais, eles acabaram dando o aval necessário para Rick implantasse suas ideias, a

Taxa de funcionários faltosos foi quase reduzida a zero, demissões tornou-se raridade e seu nome tornou-se sinônimo de respeito.

  Após um ano e meio, ele foi promovido a gerente e mais um ano para diretor do RH, logo conseguiu realizar parte de seus sonhos, comprou um carro, uma casa e um pouco de tranquilidade, apesar do seu celular lhe atormentar a toda hora. Em uma de suas poucas folgas, conheceu Simone Herbet, uma mulher muito bonita, de olhos azuis, pele lisa, lábio carnudos e cabelos compridos completamente pretos, ela estava apresentando-se em uma peça teatral chamada “O último anjo”. Rick não gostava muito de sair, mas apreciava cultura e não se negou a comparecer a peça de teatro quando ganhou o convite de sua secretária, que também fazia parte do elenco da peça.

  Ele simplesmente vidrou os olhos em Simone, do começo ao fim do espetáculo e se lhe perguntassem o que achou da história, ele pouco saberia, pois só tinha prestado a atenção naquela garota, que surgiu tal e qual a uma fênix em sua frente.

  Quando a peça terminou, ele pediu discretamente que ela lhe fosse apresentada, meio encabulado diga-se de passagem, após alguns minutos, quando Rick já estava em sua mesa, pois havia um luxuoso restaurante junto ao teatro, as duas finalmente aproximam-se de sua mesa, feita as apresentações, ele ainda segurava a sua mão e a olhava em seus olhos azuis, quando notou a sua gafe pediu inúmeras vezes desculpas.

  Ficaram conversando por toda a noite e uma notícia o deixou muito feliz, ela era solteira e estava só, como uma flor que nasce no campo aberto, esperando para alguém colhe-la e leva-la para casa, onde seu perfume iria espalhar-se pela casa.

  Logo na primeira semana, eles trocaram telefonemas inúmeras vezes e se encontraram outras tantas, seus colegas pela primeira vez em três anos, viram Rick sorrir e rir, a felicidade estava estampada em seu rosto, pois no seu passado muito bem guardado, só ele sabia que já havia amado uma vez, por isso demorou tanto tempo para abrir seu coração novamente. Simone era jovem, tinha apenas 21 anos, mas já havia terminado a faculdade de artes cênicas, tinha uma inteligência fenomenal e uma paixão por teatro.

  Com Rick ela descobriu-se uma grande empresaria, dando ideias que ele colocava em prática, o namoro foi automático e Rick não chegava mais em casa, como estivesse chegando a uma solitária, pois nos fins de semana ele tinha o que fazer, aonde ir. Felicidade... a única palavra para definir o que ele estava sentindo.

  Com o passar do tempo algo invadiu os seus sonhos, uma palavra que ele nunca havia cogitado em sua vida, “casamento”, ele se perguntou se estava preparado para uma vida a dois, pois ele estava acostumado a viver só, será que outra pessoa não iria intimida-lo?

  Certa manhã Simone tocou no assunto, ele olhou-a com carinho, lhe explicou o seu medo, mas confirmou a sua vontade de casar-se com ela, ela apenas gargalhou, ele a olhou espantado e tentou entender o porquê da risada, ela o abraçou e lhe disse que também tinha medo, que era normal e afinal das contas eles praticamente já moravam juntos, já estavam a um ano e meio namorando. Rick prometeu-lhe dar uma resposta e não se tocou mais no assunto.

  Na semana seguinte após terminar o expediente e todos irem embora, ele ficou só, talvez pela última vez, pensando no passo que iria dar, ele a amava com todas suas forças, mas mesmo assim algo o fazia hesitar, quando olhou o relógio, já passava das 23 horas, foi-se embora com a certeza da resposta.

  Chegando em casa, sentiu um cheiro muito gostoso, entrou na cozinha e lhe deu um beijo estalado, após o jantar, ela notou que ele não parava de fita-la, então lentamente tirou do bolso um pequeno pacote, embrulhado em um fino papel de seda, ela brilhou no olhar e abre minuciosamente o pacote, quando um par de alianças de ouro brilham. Rick fica quieto só observando as lágrimas no rosto dela, ela o beijou dizendo repetidamente o quanto o amava e uma noite de amor intenso começou a se desenhar.

  Um beijo no rosto pela manhã e um até logo são as únicas palavras, mas quando ele se preparava para sair, ela o abraça e chora compulsivamente, ele pergunta o que houve, mas ela nada responde, a única coisa que diz para ele é que nunca a esqueça, pois ela nunca o esqueceria, pois ele nunca mais seria só.

  Já em sua sala, Rick está compenetrado no trabalho, quando sua secretária o interrompe, pedindo para atender um telefonema urgente, antes de atender olhou para o relógio, era exatamente 15 horas. Ao atender ao telefone, as suas feições se modificam abruptamente e ao colocar o telefone no gancho se houve a pronuncia “Não pode ser”. Sai desenfreadamente rumo ao seu carro e meia hora depois tudo se confirma pois a sua frente, em uma maca do IML, está o corpo de Simone, morta por atropelamento, morta!

  Durante o funeral e o enterro, Rick nada diz, nem uma palavra sequer, o seu silêncio fazia a tristeza do ambiente aumentar ainda mais, lamentando-se a perda daquele anjo.

  Quando retornou para casa, parecia ter envelhecido 10 anos em apenas dois dias, ele atirou-se em sua cama e ficou olhando o teto, quando lembrou-se que ela o abraçara na manhã em que fora atropelada, chorando, se despedindo, ele começou a falar como se ela estivesse lhe ouvindo, ela mentiu para ele, pois ele estava só novamente, mas era muito pior desta vez, pois agora ele não tinha nem a ele mesmo como companhia.

  Dois meses após a morte de Simone, ele pediu demissão, vendeu sua casa e foi morar no litoral, o cheiro de álcool agora era uma realidade constante em sua vida. Porem hoje ao levantar-se, ele não bebeu, apenas ficou sentado olhando para o relógio, perto das 14 horas, levantou-se, colocou o revólver calibre 38 em sua cintura foi para as dunas de areia. Lá chegando, lembrou-se de tudo o que aconteceu e olhando para o céu, pediu perdão a Deus, murmurando que estava indo se encontrar com Simone.

  As 15 horas se ouviu um forte estampido e um corpo caindo pesadamente ao chão, sentindo o fim chegando, ele teve tempo de murmurar uma triste verdade em qualquer coração apaixonado e machucado.

- Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes!

  Seus olhos fecham-se lentamente, mas um pequeno sorriso fica em seus lábios.

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