No Apagar das Velas

 

Houvesse uma canção de amor, linda, que emocionasse, que arrancasse lágrimas do meu coração, seria essa canção um soneto ou simplesmente um lamento, um estado de fraqueza, uma solidão eterna e permanente. Uma sombra triste em cima de uma duna, todos estão presentes, mas quase ninguém sente a solidão se aproximando dos seres humanamente ridículos que acreditam na palavra paixão.

Olhe o sol escaldante, o que fora antes algo que aquecia, agora é algo que queima, queima e mata o poeta, nas linhas terminais de um poema escrito com sangue e com o coração partido, a caneta não existe mais, agora só o teclado do computador, porque mataram o poeta com uma canção de amor? Outrora acreditou-se que o poeta era um ser eternamente apaixonado, agora com o passar do tempo, ele tira do seu peito frio um coração gelado e todos se espantam, tarde demais para lamentar a perda da inocência, agora é tarde para lágrimas e desculpas, o poeta já morreu!

Houvesse um lindo poema, que falasse de amor e de uma amada, não haveria razão para esse funeral e ninguém sabe quem morreu, pois só há um corpo ali, inerte, morto, se decompondo e o poeta fica aqui compondo poemas entre linhas gotejantes de tristezas, o coração gelado em cima de uma mesa com uma faca cravada em seu centro, agora lamenta-se a perda, mas agora é tarde demais para se arrepender.

Vai o poeta ser sepultado em uma canção de amor, agora que já morreu, eles o homenageiam com toques de cornetas e medalhas de louvor e na verdade isso não existe, só o que existe é um corpo apodrecido pelo tempo e pela angustia e suas mãos não pegam mais uma caneta para escrever poemas de amor, pois o poeta morto perdeu sua fé num sentimento que na verdade nunca existiu, pois foi criado pelos poetas para enganar corações tristes e sem vida e tentar dar esperança numa esperança sem esperança e na verdade isto cansa.

O poeta morreu, os pássaros se calaram, o mar está revolto e as rosas agora não representam mais nada, a criança chora neste meu devaneio, o poeta implora para ser ressuscitado, mas está enterrado, e ao seu lado está sua companheira morta a muito mais tempo, já totalmente decomposta pelo tempo, só então o poeta nota a sua presença e se entrega definitivamente ao seu triste calvário, pois de seus olhos agora mortos, correm duas lágrimas de tristeza ao olhar para o lado e notar a presença do amor.

O poeta morreu e posso garantir que quem o matou fui eu, agora posso ser castigado pelo meu crime, pois o poeta sou eu!

 

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