Um Menino Triste na Beira do Mar (A breve história de uma vida)

Com uma leve brisa soprando em seu rosto, o cheiro do mar em suas narinas e  a água gelada em suas pernas, ele estava imóvel. Seus olhos estavam com lágrimas e soluços se ouviam, ele fitava o mar com um olhar triste e melancólico.

- Porque sou tão triste? – perguntou-se.

A resposta não veio, apenas a onda do mar se quebrando se fez perceber, um infinito de água salgada, ao longe uma pequena menina saltitante e feliz se aproximava, quando ela chegou perto, com um olhar de criança curiosa, ela o notou.

- Oi – cumprimentou-o – O que faz aqui?

Ele levantou-se, limpou as pernas suja de areia e num suspiro doído, respondeu.

- Estou esperando o fim!

Ela inclinou sua cabecinha para o lado, deixando aparecer os cabelos cacheados de sua nuca.

- Porque o fim e não o começo?

- Você é criança, não entenderia o que estou sentindo, é complicado até para mim... é tão triste, mas... é melhor você voltar para onde estão os seus pais. – Disse ele tentando se livrar da menina.

- Posso te mostrar algo?

- Estou sem tempo mocinha.

- É.... sozinho na praia e sem tempo. Que coisa curiosa. - Retrucou ela – Vamos, vai ser divertido!

Diante daquela insistência e daquele argumento, ele aceitou o convite, ela sentou-se na areia, de frente para o mar e pediu para ele fazer o mesmo, ela o pegou pela mão e ele pode sentir a suavidade daquelas mãozinhas.

- Feche os olhos e relaxe. – Pediu-lhe.

Ele fechou os olhos, não levando muito a sério aquela brincadeira de criança, então ela chamou-lhe a atenção.

- Sério, por favor.

Ele concentrou-se e aos poucos foi relaxando, sentiu como seu corpo estivesse pairando sobre o mar, uma paz inundou o seu corpo, uma paz desconhecida.

- Abra seus olhos e viaje comigo! – Ela ordenou-lhe.

Abriu os olhos e viu uma casa velha com um enorme pé de ameixeira no pátio, ouviu palmas e uma canção de aniversário, eles se aproximaram e deu para perceber que realmente era uma festa de aniversário. Ele sentiu o corpo tremer, um choque indescritível.

- Mas... aquela criança sou eu, meu Deus, e aqueles são os meus falecidos pais! – Ele estava atônito. – Como é possível?

- Isso mesmo Fabio, é você e seus pais comemorando um aniversário seu.

- Como sabe o meu nome? – Surpreendeu-se.

- Não importa, o que eu quero te mostrar é a sua felicidade, veja como você está feliz.

- É verdade, era bom estar junto dos meus pais, tudo parecia mais completo, meu pai era um bom homem, apesar do alcoolismo, nunca foi uma pessoa agressiva e me curtia muito. Minha mãe era uma mulher traballhadora, batalhadora, severa, enfim era uma guerreira, pena que bebia também. Mas eramos fellizes, muito felizes, minha infância na Vila Jardim está sempre na minha memória.

Seus olhos marejaram e ela o abraçou carinhosamente, pediu-lhe que os fechasse mais uma vez e quando abriu-os de novo, estavam em um hospital.

- Meu Deus, eu lembro desse momento, minha mãe tinha se acidentado quebrando o braço e a rotula do joelho, ficou muito tempo internada por complicações pós operatório, infelizmente sua perna nunca mais melhorou e ela acabou ficando manca. Nossa vida ficou horrivel, com o meu pai bebendo cada vez mais e eles acabaram se separando.

- É verdade, você sofreu muito, não estava acostumado a ficar longe de sua mãe!

- Eu fiquei sob os cuidado da minha cunhada, uma pessoa de gênio dificil e bipolar, acabei virando o empregadinho da casa. Lembro que quando fizemos uma visita ao hospital, eu chorei muito abraçado em minha mãe e quando chegamos em casa, levei tapa na cara e muitos castigos por isso.

A menina lhe sorriu ternamente e mais um salto em sua história foi efetuado, desta vez uma grande escadaria e alguns cachorros num pátio enorme eram vistos.

- Sabe onde estamos Fabio?

- Sim, fomos morar numa casa de fundos no bairro Alto teresópolis, lembro que havia muitos camundongos nesse lugar, eu era franzinho e passamos fome neste local, meu irmão parou de ajudar, acho que eu tinha uns doze anos e minha única refeição era a merenda escolar da escola Silva Paes, até que um dia eu desmaiei de fome e passei também a almoçar na escola, essa escola me ajudou muito.

- Você era um bom aluno, sempre teve boas notas, eles sabiam do teu potencial!

- Pode ser, é uma pena que fui obrigado a parar de estudar.

Mais um salto e estavam em uma grande rede de supermercados, Fabio sorriu, achou engraçado aquela cena.

- Meu primeiro emprego, larguei a escola para trabalhar de empacotador, moravamos agora no Bairro Glória. A vida estava um pouco melhor nesta época, foi aqui que comecei a fumar, me achava o tal e meu salário repassa integralmente para minha mãe e foi também nesta época que tive minha pirmeira experiência sexual, um pouco desanimadora diga-se de passagem.

- Mas você viveu bons momentos neste bairro, com os seus primos Mário e Ana, era divertido.

- Sim, mas acabamos nos mudando para a cidade de Canoas, no bairro Mato Grande.

- E é exatamente para onde vamos!

Fabio se viu novamente e ficou impressionado como tinha mudado, cabelos compridos, barba, tatuagens e muitas noitadas.

- Neste lugar acho que toda a minha raiva pela vida veio à tona, comecei a usar drogas e a ficar violento, minha tristeza se multiplicou neste lugar, mas também tive momentos legais, frequentava uma danceteria a noite, dançava e bebia muito, nossa até deu uma pontinha de saudade.

- Também foi aqui que você descobriu-se um poeta, você escrevia muito.

- É verdade, diziam que eu era bichinha porque eu fazia poesia, mas quando meus amigos se apaixonavam, era eu quem escrevia as poesias que eles davam para as amadas, e eu... eu parecia estar eternamente apaixonado.

Novamente o cenário mudou, agora em outra cidade, mas com um rapaz diferente, mais maduro, experiente, responsável e sem drogas.

- Cachoeirinha me deu uma longa história e talvez a minha vida realmente tenha acontecido aqui. Voltei a rever o meu pai depois de treze anos longe, ele tinha parado de beber e fumar, voltou a ser um homem e a ser meu pai novamente. Aqui também conheci meu primeiro grande amor, não exatamente aqui, mas no Balneario de Quintão, mas foi aqui também que comecei a aprender a sofrer por amor. Nesta cidade também perdi as pessoas que mais amava na vida, meu pai, mãe, irmão, prima e tia. Mas também foi aqui que me tornei um homem mais responsável e conheci uma  mulher que me ama muito, o nome dela é Silvia e talvez ela não saiba o quanto é importante para mim e o quanto a amo em silêncio, pois além de tudo isso, ela me deu a coisa mais importante da minha vida, minha filha Mahara. Nuna tinha sido tão feliz, ela deu um novo sentido para a minha vida e eu nunca imaginei que ser pai e marido fosse tão compensador e maravilhoso, hoje sou feliz graças a essas duas mulheres.

- Bom Fabio, acho que o nosso passeio chegou ao fim!

Eles voltaram para a beira da praia, Fabio tinha um sorriso nos lábios, olhou-a com carinho e disse:

- Obrigado, muito obrigado por me lembrar o quanto sou feliz!

- As vezes temos que olhar para traz, para o passado e ver que cada dia que passa, somos felizes, corrigindo erros e descobrindo que a vida  é um terno aprendizado.

- É verdade menina.

- A sinceridade matou o homem, mas o amor o ressucitou, bem vou indo.

- Você não me disse seu nome!

- Isso não importa.

- Pra mim importa sim.

- Me chame apenas de “Anjo do campo*”!

Ela sumiu no horizonte e ele ficou olhando com um sorriso e um brilho especial no olhar.

- Anjo do campo*, vejam só! Hehehehehe


                                                                            FIM?



* Mahara significa "Anjo do campo" e é o nome da minha filha!

 

 

 

 

 

 

               

 

  

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